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ARQUEOLOGIAS AFETIVAS

 2016

Coletas de fragmentos, cacos, objetos, desenhos e fotografias

Tamanhos e dimensões variadas

Ver, Ouvir, Olhar, Caminhar, Admirar, Sentir, Perceber, Tocar, Aproximar, Pegar, Coletar, Lavar, Guardar, Proteger, Apreender / Aprender / Prender / Soltar / Voar / Seguir / Ser. [...] Comecei pela raiz, lugar da fixação, da essência da memória, da preservação da vida. Lugar de arraigamento, de permanência em um local, de se prender, da necessidade de se estabelecer. Assim, as histórias de cepas de uva chegaram a mim, primeiro pelos caules, galhos, folhas, frutos, até chegar ao líquido precioso, vermelho como o sangue. Quente como o carinho. Mas retornei às raízes, coadunadas com as pedras — palanques que sustentam seus galhos e que desenham emaranhados suspensos, barras de xisto, semelhantes ao ferro, resistentes em sua forma frágil, delicadas, com toque metálico, em pedras arredondadas que compunham no solo a sustentação. Entre as caminhadas, entre descidas e subidas, surgiu um revirado de terra fresca e úmida, com rastros de pneus, forjado por um objeto escavador que, remexendo o solo, fez surgirem pequenos fragmentos de memórias. Entre essa sorte de objetos, cacos de louças ficaram expostos, brilharam como lembranças imersas dentro de uma caixa que havia muito tempo não se abria, e, então, pude tocar em memórias não vividas por mim e perdidas nas camadas de terra que as escondiam. Coletei alguns deles, embrulhei no casaco, que serviu de sacola, e continuamos a caminhada. Segui adiante, coletando folhas, galhos, pedras, terras e cacos, [...] passado que ressoava em meus ouvidos e que me incitou a querer narrar esse lugar, suas delicadezas escondidas e enterradas. Essa necessidade recém-surgida se encheu de pleno sentido quando avistei um barraco de madeira que despencou em umas das ladeiras daquele lugar e que, pelos sinais, estava abandonado havia muito tempo. Não pude me aproximar, pela ausência da rampa/calçada que um dia lhe dera acesso, mas pude ver de longe panelas, canecas, talheres, um armário caído, uma cadeira solitária, um quadro de um santo católico e todo o resto, tomados pelos emaranhados espinhosos da amoreira que abraçava o local, como se, num desejo de entropia, estabelecesse que aquilo voltaria para terra e que nela se enterraria, na mesma memória, memória das raízes. Rodeei o barraco para poder ter a visão de um ângulo maior, mais amplo, e vi que lá em cima suas paredes escoravam-se nas pedras, que também rolavam pelo morro, e que debaixo dos galhos secos da amoreira havia muitos cacos de louças quebradas, que, então, se somaram aos outros já coletados. [...] sugeriam uma aura de proteção e preservação de uma memória não vivida. Outros cacos me pediram a continuidade de seus desenhos e traçados; outros evocavam a sua ancestralidade, a sua relação terra/mineral, [...] “Arqueologias afetivas” é o nome dado a essa coleção de memórias arqueológicas [...] é o encontro [...] e à experiência do sentido de fronteira que me foram possibilitadas pela vivência entre Portugal e Espanha.

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